Ando com vontade de escrever uma Ifigénia na Táurida. A minha Ifigénia despir-se-ia dos contornos sociopolíticos que vestem as de Eurípedes e Goethe, e passaria a valer por si própria, em vez do que representa.
Queria uma Ifigénia de carne e osso, e o seu dilema seria não moral (ou ético, na verdade), como na do Goethe, mas de outra ordem. O que aconteceria com a minha Ifigénia é fácil de explicar em poucas linhas: em pequena, fora sacrificada pelo pai, sendo que Diana numa nuvem a transportou para as terras bárbaras da Táurida. Aí, ela aprendeu a viver a sua vidinha miserável, como sacerdotisa ao serviço das leis miseráveis que o miserável rei Toas (e Ifigénia também, por arrasto) perpetuava. Enquanto isto, Ifigénia sonha, como acontece em Eurípedes e em Goethe, com a fuga.
Quando o seu irmão Orestes aparece finalmente, Ifigénia tem a oportunidade de salvar-se da sua triste existência. Traça um plano que visa a sua fuga, com Orestes, para a Grécia. No entanto, na hora da fuga, Orestes parte sozinho com Pílades, o seu fiel companheiro, e Ifigénia fica.
Ifigénia fica, porque é fraca. Uma mulher infeliz que vive uma vida medíocre, mas confortável, que teme a mudança, mais que a morna infelicidade que vive, porque a mudança (uma nova vida, na Grécia, após tantos anos de exílio) implica readaptação, que implica crescimento. E crescer implica mudar a pele.