22.11.09

Comunicação

De Ohayô/Bom dia (1959), Yasujiro Ozu

Marquinhos

Disse a tia ao Marquinhos: «Tenta fazer por não te apaixonares pela primeira pessoa que demonstre ter o mínimo interesse em ti.»

21.11.09

A inveja

Tenho estado aqui a passar o olhar pelo Viagem a Itália, do Goethe, diário escrito por ocasião da sua viagem a Itália, durante os anos de 1786 e 1787. Passo os olhos, porque é livro a mais para o tempo de que disporei, reduzindo-me assim a uma leitura orientada, à qual não poderei escapar, para bem da concentração e da sanidade.
Mas tem-me acontecido outra concentração, a que resulta na temida dispersão, quando o início de uma entrada impede-me de resistir a levá-la até ao fim, mesmo sabendo que essa entrada específica de nada servirá à leitura direccionada que pretendo fazer do livro. Isto acontece porque a prosa do Goethe flui de forma tão agradável, e o seu olhar é tantas vezes de uma juvenilidade e entusiasmo desarmantes, sempre aliados a uma invejável lucidez.
Bendito aquele que passa pelo mundo com os olhos bem abertos.

Palavras-chave: juvenilidade; entusiasmo; lucidez.

20.11.09

O homem dela


Gosto da forma como a letra desta canção progride. Na primeira quadra, a Billie diz possuí-lo; na segunda, mostra como ele lhe é útil; na terceira diz que, apesar disso, ele não é afinal grande coisa; na quarta, ele já lhe mente e bate; na quinta, já tem outras mulheres; but I love him, vai repetindo ela, reconhecendo que não deveria amá-lo (I don't know why I should). Quase no final, diz, como chave de ouro, what's the difference if I say I'll go away, when I know I'll come back on my knees someday. Como boa masoquista, não se limita a voltar. Tem que ser de joelhos.
Esta é uma bela canção de amor, porque não explica a razão de um amor existir, mas as razões pelas quais esse amor não deveria existir, quando no entanto existe.
Quando oiço esta canção, acho que o melhor amor deveria ser sempre esse, o que existe apesar de.
Mas depois lembro-me do Roy Orbison, e vou ouvir isto

E fico logo melhorzinho.

18.11.09

Mentes brilhantes

A Antígona luta contra o Estado, porque acredita que as leis da natureza humana prevalecem necessariamente em relação às leis do Estado.
Não me interessa discutir se a Antígona tem razão ou não. Interessa-me apenas salientar um facto, várias vezes contornado, que é a sua morte antes do final da peça. Significará que o Estado é mais forte que o indivíduo, levando, sem pudor, a humanidade e a ética à sua frente, e acabando por vencer sempre? Ou significará que Antígona, cega pelos seus ideais de humanidade, e sem capacidade de readaptação, de entender que cada dia é um recomeço, e que o Homem não é muito mais que os animais, que comem, cagam, mijam, fodem, acaba por sentenciar-se, a si, à morte?
Lembro-me daquela passagem da ópera do Purcell (outra em que a protagonista, incapaz de se adaptar à sua nova situação, morre), que coloquei aqui há uns dias. Great minds against themselves conspire. Não invejo mentes brilhantes assim.

Homem Aranha Redon Kafka 1881 2009


























Araignée qui pleure (1881), Odilon Redon

Abraçar a Razão, com Goethe

E aprender a deixar de lidar com as miragens do que não se tem.

16.11.09

The flying mouse

Não há nada como um bom melodrama

Madame de... (1953), Max Ophüls

15.11.09

Silêncio

A sexualidade é sobrevalorizada. Que o diga o tio Vânia (o verdadeiro).

13.11.09

Ifigénia revisited

Ando com vontade de escrever uma Ifigénia na Táurida. A minha Ifigénia despir-se-ia dos contornos sociopolíticos que vestem as de Eurípedes e Goethe, e passaria a valer por si própria, em vez do que representa.
Queria uma Ifigénia de carne e osso, e o seu dilema seria não moral (ou ético, na verdade), como na do Goethe, mas de outra ordem. O que aconteceria com a minha Ifigénia é fácil de explicar em poucas linhas: em pequena, fora sacrificada pelo pai, sendo que Diana numa nuvem a transportou para as terras bárbaras da Táurida. Aí, ela aprendeu a viver a sua vidinha miserável, como sacerdotisa ao serviço das leis miseráveis que o miserável rei Toas (e Ifigénia também, por arrasto) perpetuava. Enquanto isto, Ifigénia sonha, como acontece em Eurípedes e em Goethe, com a fuga.
Quando o seu irmão Orestes aparece finalmente, Ifigénia tem a oportunidade de salvar-se da sua triste existência. Traça um plano que visa a sua fuga, com Orestes, para a Grécia. No entanto, na hora da fuga, Orestes parte sozinho com Pílades, o seu fiel companheiro, e Ifigénia fica.
Ifigénia fica, porque é fraca. Uma mulher infeliz que vive uma vida medíocre, mas confortável, que teme a mudança, mais que a morna infelicidade que vive, porque a mudança (uma nova vida, na Grécia, após tantos anos de exílio) implica readaptação, que implica crescimento. E crescer implica mudar a pele.

12.11.09

Como no título daquele livro da Margarida Rebelo Pinto

Ontem li a Antígona. Hoje recebi um postal de aniversário, que diz «sê selvagem e insaciável. Agora. Imediatamente.» Amanhã talvez seja dia de revolta.

11.11.09

Sonhos

Os meus sonhos parecem feitos na sala de montagem, com os seus cortes abruptos, como nos primeiros filmes do Godard.
Não imagino como se sonharia antes do advento do cinema.

Vencer o instinto

«Vencer o instinto», disse-me ela, a propósito da Ifigénia. Convém lembrá-lo, quando leoas perseguem zebras na televisão.
Na verdade, a Ifigénia de Eurípedes não pensa duas vezes antes de enganar o rei Toas. Quando vê surgir a oportunidade, fá-lo, contrariamente à Ifigénia do Goethe, mais as suas terríveis dúvidas. Curiosamente, tudo acaba por correr mal à Ifigénia do Eurípedes: mete-se no barco com Orestes e Pílades, rumo à Grécia, com o rei e o povo bárbaros ludibriados, mas eis que os ventos mudam e o barco, incontrolável, começa a ser trazido para terra, onde esperam a espada dos bárbaros e consequentemente a morte. Já a Ifigénia do Goethe tem melhor sorte: pensa muito, obedece muito aos valores éticos – uma Senhora, portanto – e no fim consegue abalar para a sua terra mais o irmão e futuro cunhado, sem enganar ninguém, pois é o próprio rei Toas que lhe dá permissão.
Este optimismo de Goethe é uma variante de snobismo. Podemos dizer tratar-se da relação entre boas acções e boa fortuna, mas não é bem isso. Trata-se de adquirir a humanidade quando se rejeita o instinto e se usa a Razão. Isto é snobe, porque se parte do princípio que o instinto é indesejável, porque um bom homem/mulher tem que ser obrigatoriamente mais do que isso. Mais do que isso, que o animal, o que não age, mas reage.
O que escapa aqui ao Goethe, entre outras coisas, é que muitas zebras só acabam por escapar às leoas porque o instinto lhes diz que comecem a fugir, ainda antes de o mal estar à vista. Uma qualidade ausente de muitos de nós, e que muitas vezes daria bem mais jeito do que a capacidade de hiper-racionalizar as nossas acções.

10.11.09

Desespero de causa

De M (1931), Fritz Lang.

Timing

O que o Wong Kar-Wai parece estar sempre a dizer é que o amor, ou as relações, são sempre questão de timing. No dueto formado por Disponível para amar e 2046, parece sugerir que, uma vez desregulado o timing, é complicado voltar a agarrá-lo, porque o desencontro com outro implica o desencontro connosco, e se desencontrados de nós, dificilmente encontramos outro, um novo ou o mesmo.
Há momentos em que a arte não deve imitar a vida, mas gerar novos modelos, pelo bem de todos nós. É esta a razão pela qual o Wong Kar-Wai deverá fazer um novo filme, naturalmente final, no qual o protagonista reencontra (encontra?) por fim o fugidio timing. Porque não deve haver muitas coisas piores que uma falta de timing que se prolonga indefinidamente, é destino demasiado cruel para um personagem que apenas quis poder amar e ser amado.

7.11.09

Post escrito com o patrocínio de Benuron

Q: Illness is a pervasive theme in your work, be it the mysterious sickness in The River or the apocalyptic disease in The Hole... You also made My New Friends, a 1997 documentary about AIDS. What is the significance of this theme to you?
A: To answer, I need to return to the issue of the human body. The body of course has its interior as well as its exterior properties. I feel that the cause of sickness nowadays is people not exploring their internal realities. The reason why I decided to incorporate sickness into The River was because I witnessed this episode when Lee Kang-Sheng [actor que colabora na maioria dos filmes do realizador] became sick. It lasted for nine months. That was the first time that I began to understand the relationship between human psychology and illness. I realized that he probably got sick because he wasn't able to adapt to the changes in his life, such as becoming involved in a filmmaking circle. I think it's true for everyone that we have a hard time confronting and recognizing the dark corners of the mind.
[entrevista feita a Tsai Ming-Liang]

Quanto ao primeiro sublinhado, apetece-me perguntar se não se poderá ainda dizer que a causa da doença de muita gente é mais o explorarem demasiadamente as suas realidades internas. E se isso não será, enfim, mais tramado.
Quanto ao segundo, não tenho nada de relevante a dizer. Sublinhei só por achar giro.

Humildade

Dizia o progenitor, como conselho ao filho: «O que é preciso é ter humildade. A humildade é essencial. Olha para mim, que vim do nada, e observa tudo o que atingi, tudo isto que te pude oferecer. E sempre com humildade. Não há alguém mais humilde do que eu.»
Progenitor mau, que fez com que o seu Marquinhos crescesse com o conceito de humildade embrulhado. A sua humildade passou a ser falta de discernimento, e não a agradável utopia do seu pai. Quem ganhou, saberá alguém. Se não, talvez nada faça sentido.

6.11.09

«Belo» não é bem a palavra

Dido

«Remember me, but forget my fate», diz ela.

5.11.09

Auto

A doença atirou-me para a audição da ópera de Purcell, Dido e Eneias. A certa altura, quase no final, diz-se que great minds against themselves conspire. É o coro que o diz.
Houvesse um coro na peça de Tchékhov que dá nome a este blogue, e diria a mesma coisa. Já tio Vânia, o próprio, e como muitos de nós, de resto, é seduzido por outro tipo de self pity/self suck, naturalmente mais fácil de carregar aos ombros: «a culpa não é minha», diz ele. Mas tio, deixa-me dizer-te que a culpa é, na verdade, tua. E que essa tua culpa é a minha, e a dele e dela também. Que é cada um com a culpa que é de todos.

4.11.09

Achega

Self pity é um self suck pervertido.

Meio-dia

3.11.09

Influência positiva

Só pela descrição do blogue (ou subtítulo, para os amigos), merecia menção. Mas não é só por isso que está na barra lateral.
Outro exemplo mora aqui, fonte inesgotável de inspiração. Se ela conseguiu, é possível.

Round 2

Sasha

Documentário acerca de Sasha Waltz, coreógrafa alemã, supostamente o novo grande nome da dança na Alemanha, depois da morte de Pina Bausch.
A certa altura fala-se de Körper, um seu espectáculo datado de 2000, em que se procurou a exploração do corpo enquanto carcaça, desprovido de sensualidade, na sua acepção mais pura, onde curiosamente, reparo nas imagens que passam, todos os bailarinos envergavam uns trapinhos a tapar as vergonhas, o que muito estranho.
Minutos depois fala-se de S, espectáculo sucessor de Körper, em que se procurava explorar a sensualidade e a sexualidade dos corpos. Surpreendentemente ou não, aparecem aí os bailarinos nus.
Portantos, caros amigos, lembrai-o: o corpo é mais puro, quando com cuequinha. Sem ela, é para a maluquice.
Por fim, penso: mas quão congruente, a visão desta grande coreógrafa. E, depois disto, admiro-me menos que aquele seu espectáculo, que pede emprestado ao Purcell o seu Dido & Eneias, seja uma sopa pomposa de ideias dispersas e aparentemente inconsequentes.

Uma verdade inconveniente

Na livraria havia um livro com o bonito título A fórmula da felicidade, e como resistir a um livro com um título assim? Não se resiste. Peguei nele e coloquei-o debaixo do braço. Caminhei dois passos, vi O segredo para a felicidade, e foi como se Júpiter me partisse ao meio com um dos seus raios. Pensei: «qual vale mais, a fórmula ou o segredo?» Com a incapacidade da escolha, sem o dinheiro para adquirir ambos, voltei para casa, infeliz.

2.11.09

Asch

Morrer na praia.

1.11.09

Encruzilhada

Vejo um DVD da ópera Ifigénia na Táurida, de Christoph Willibald Gluck, na ópera de Zurique. Pouco antes do final, Toas é morto por Pílades, o que não acontece nem na peça original de Eurípedes, nem na de Goethe. O que se compreende: Eurípedes procurava cantar o povo grego, pelo que não convinha pô-lo a assassinar alguém, mesmo sendo Toas um bárbaro; no caso de Goethe, não teria a mínima lógica, quando toda a obra foi edificada com base num programa de anti-violência, que apela ao culto dos valores éticos.
Ou a internet não é tão espectacular quanto pensava, ou sou um mau pesquisador nos seus meandros, porque não tenho conseguido encontrar de onde foi retirada a ideia de se matar Toas. Ideia que não me parece fazer sentido, a menos que numa dimensão em que o que se queira é somente sangue, suor e lágrimas, ao custo de honestidade e coerência.

31.10.09

El patito feo